quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Homossexualidade nos Quadrinhos: Um tema intocável?


Por Valdemar Morais

Em junho de 2012, a organização One Million Moms (Um Milhão de Mães) promoveu um boicote às editoras Marvel e DC Comics, por retratarem relacionamentos homossexuais em suas revistas. Como publicado em matéria da revista Mundo dos Super-Heróis nº 34, em 06 de junho, a segunda edição da revista Earth 2 da DC trazia Alan Scott, o Lanterna Verde original, criado em 1940, assumindo sua homossexualidade na nova cronologia da editora, Os Novos 52. Uma notícia que gerou repercussão em diversos meios de comunicação, causando inclusive errôneas e vergonhosas reportagens. Duas semanas depois, em evento já muito aguardado, a Marvel publicou Astonishing X-Men nº 51, estampando na capa o casamento do herói mutante Estrela Polar e seu parceiro Kyle. 


O casamento de Estrela Polar e Kyle já era aguardado...
(Fonte: Elite Comics)









...já a revelação de Alan Scott pegou muita gente de surpresa
(Fonte: O Idiota Feliz)
















As mães do referido grupo alegavam que o conteúdo dessas publicações poderia influenciar na orientação sexual de seus filhos e tentaram convencer o público a não comprar as revistas. Resultado? Uma enxurrada de comentários apoiando a iniciativa das editoras que desembocou na saída do ar da própria página do One Million Moms no Facebook. 

Apesar dessa repercussão, personagens homossexuais nos quadrinhos não são propriamente uma novidade. Nos anos 1920, quadrinhos franco-belgas já traziam a temática nas entrelinhas, que o diga Tintim, de Hergé, cuja sexualidade é motivo de especulações até hoje, em função da quase inexistência de personagens femininos em seus 24 álbuns. 

Zetsuai 1989 é um exemplo
de mangá Yaoi
(Fonte: Manga Park)
No Japão, os mangás do gênero Yaoi  e Yuri desde os anos 1970 trazem histórias de variados temas, nas quais homens ou mulheres se relacionam com pessoas do mesmo sexo, embora não se declarem gays. Na mesma época, no Brasil, Henfil (com Fradim) e Henrique Magalhães (com a tira Maria) provocavam a ditadura militar com seus heróis homoafetivos.

A partir de 1980, Nazario Luque e Ralf König, quadrinistas assumidamente gays, movimentaram a HQ underground na Espanha e na Alemanha, respectivamente. E nos Estados Unidos, desde a vilã Sanjak de Terry e Os Piratas até o casal de super-heróis Apolo e Meia-Noite, uma variedade de figuras (veja abaixo), positiva ou negativamente, marcaram a história do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros)  nas HQs. 




Apesar disso, a polêmica permanece: é cabível apresentar personagens homossexuais nos quadrinhos? Trata-se de um meio válido de promover o debate ou mero marketing? Para o ilustrador Eduardo Menezes, de 28 anos, o tema é aberto a discussão em qualquer área e com as HQs não seria diferente. “Acho que isso abre discussões saudáveis e esclarecimentos sobre alguns temas tabus pra sociedade e os quadrinhos sempre foram de alguma forma um veículo pra abordagem de temas polêmicos”, opinou.

O estudante e leitor Bruno Duarte, 20, também apoia essas iniciativas, mas critica a exploração mercadológica sobre elas: “O errado na inclusão de homossexualidade nos quadrinhos é a balbúrdia com que tratam o assunto, e a intenção que as editoras têm em querer promover suas vendas somente por causa disso. Uma HQ é boa quando tem uma história boa, com homossexuais atuando nela ou não.”, argumentou.

No ponto de vista do advogado e fã Zorbba Igreja, 32, a contribuição das HQs para o Movimento Gay ao retratar personagens homoafetivos no âmago de suas tramas tem caráter digno. “A existência de heróis homossexuais pressupõe a existência de um grupo de leitores homossexuais que gostariam de se ver representados em um universo fantástico”, afirma Igreja, que emenda: “Pensar que o tema acima é intocável em qualquer âmbito é retrocesso dos direitos civis e um passo ao retorno à idade das sombras. As HQs nesse ponto deram um passo importante para a construção de um discurso igualitário onde ninguém deve temer por sua cor, credo, gênero ou orientação sexual”.

Protagonizando ou apenas no background das histórias, parece mesmo que no mundo das HQs, os super-heróis gays chegaram para valer, seja para o deleite dos leitores ou das editoras que os publicam. 


FORA DO ARMÁRIO- Conheça alguns personagens gays das HQs
Hulkling e Wiccano no traço de Jim Cheung
(Fonte: OC Weekly)
O Colossus Ultimate demorou um pouco, mas assumiu sua orientação.
(Fonte: Fanpop)

Anarcoma estreou na revista Rampa, em 1978, mas só 1983 teve seu álbum próprio 
(Fonte: 
Nazario Luque)

Caio foi o primeiro personagem possivelmente gay numa HQ brasileira de grande circulação
(Fonte: 
Folha Online)

Estrela Polar e sua equipe, a Tropa Alfa, estrearam como adversários dos X-Men
(Fonte: 
New Comics Day)
Sina, à esquerda, e Mística fizeram parte da segunda Irmandade de Mutantes, vilões dos X-Men
(Fonte: 
Journey Into Awesome)

Extraño foi um herói tão mal elaborado que nem o Movimento Gay o tolerou
(Fonte: 
Comicvine)

Apolo e Meia-Noite, antes de Os Novos 52, por Bryan Hitch
(Fonte: 
The Nerds Uncanny)

A nova Batwoman estreouna edição 10 da minissérie 52
(Fonte: Omelete)



Fonte


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Minha Primeira Vez: Ellis Carlos!


Por Valdemar Morais


(Fonte: Arquivo Pessoal)
O colorista e designer Ellis Carlos, 30 anos, levou para a vida profissional a sua paixão pelas HQs. Formado pela antiga Fábrica de Quadrinhos (hoje Quanta Academia de Arte), Ellis trabalha como freelancer, seja no desenho, seja na pintura, mas ainda tem tempo de se deliciar com uma revista em quadrinhos como se fosse a primeira. Aproveitando o ensejo, Quadrante9 pergunta: Qual foi sua primeira experiência com as HQs, Ellis? 








Novos Titãs nº 35, novembro de 1989
(Fonte: Guia dos Quadrinhos)

Quando comecei com Super Heróis foi pela DC e a lembrança mais viva que tenho é da revista Novos Titãs nº 35, quando surgiu o Gnu. Pra mim, era fantástico todo aquele universo, e acabei desenvolvendo uma tara pela Kori (Estelar), a ruiva de dois metros de altura, que vestia uma coisa minúscula e que teve um caso com o Asa Noturna. 

Que atire a primeira pedra o nerd que nunca abriu uma revista dos Titãs só pra olhar as... Qualidades volumosas daquela mulher-alien e que não fantasiava secretamente com ela. Naquela edição, armavam pra incriminar a Kori por assassinato. Até essa fase, o Gnu era só um sujeito fantasiado. Depois virou um monstro de verdade. Saudade daquele tempo! 






A Turma Titã, criada por Bob Haney e Bruno Premiani em 1964, era uma equipe de heróis adolescentes, especificamente de parceiros (sidekicks) de grandes heróis da DC Comics como Robin (Batman), Moça-Maravilha (Mulher-Maravilha), Kid Flash (Flash), Aqualad (Aquaman) e Ricardito (Arqueiro Verde). No entanto, a equipe só alcançou grande sucesso nos anos 1980, quando foi recriada  sob o título de Novos Titãs por Marv Wolfman e George Pérez, com a inclusão de personagens como Estelar, Cyborg e Ravena.




Fonte

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Mestre Esquecido: Alex Toth



Por Valdemar Morais


Alex Toth, anos 1970
(Fonte: Comicvine)

“É a melhor história em quadrinhos de todos os tempos!”, afirmou o roteirista e editor Jerry DeFuccio (1925-2001). O célebre desenhista Gil Kane (1926-2000), ao ler a HQ F-86 Sabre Jet, escrita por Harvey Kurtzman, editor da lendária EC Comics, admitiu que aquela era uma história em quadrinhos que “chegara a um patamar nunca antes alcançado na narrativa gráfica”. O autor dos vigorosos e limpos traços da aclamada trama, Alex Toth, foi bem direto ao julgar seu trabalho: “Poderia ter sido melhor”. É o que relata o quadrinista Mário Latino em seu artigo Alex Toth: o gênio incompreendido.

Artista arrogante, amante inveterado das HQs, ícone das animações. São muitas as alcunhas que definem Alexander Toth – pronuncia-se “tôlss”-, mas não há dúvidas que, ainda que pouco seja lembrado, a influência que exerceu para indústria das HQs nos Estados Unidos e as animações em todo o mundo é perceptível até hoje.

De origem húngara, Alex nasceu em Nova York, em 25 de junho de 1928, filho de Mary Elizabeth, dançarina e desenhista, e Sandor Toth, músico, pintor, ator e dramaturgo. Apesar das várias atividades, Sandor mantinha a duras penas o apartamento humilde na região de Yorkville. Alcoólatra, ele se rendeu ao vício e abandonou a mulher e o filho ainda garoto. 

Apesar disso, Sandor deixou para Alex um hobby fundamental: a leitura de tiras de jornal. O menino, desde os três anos de idade, se encantou com as aventuras narradas em séries como Terry e Os Piratas, de Milton Caniff e Flash Gordon, de Alex Raymond. Movido por essa salada de aventuras ao desejo de contar histórias através de desenhos, Alex Toth, ainda bem jovem, escolheu sua profissão: desenhista de tiras de jornal.

Scorchy Smith, criada por John Terry,
 se tornou cult com Sickles
(Fonte: Library of American Comics)
Até alcançar o domínio sobre o desenho, Alex Toth treinou exaustivamente sob o estilo de Noel Sickles, autor da tira Scorchy Smith e um artista cuja influência declaradamente marcou a evolução de Toth como quadrinista. “O que eu aprendi com Sickles... Foi valorizar as noções de massa, linha, clareza, padrão, perspectiva, momento dramático, luz e sombra, o positivo e o negativo das silhuetas, perfis e, sobretudo, trabalhar a tensão” (em livre tradução), declarou Toth em seu artigo no Buyer’s Guide, em 1977. 

Levado por um professor que notou seu talento, Toth, aos 13 anos, cursou a High School of Industrial Arts, onde aprimorou suas habilidades e saiu já como profissional em 1944. 


A grande estreia ocorreu na edição 32 da revista Heroic Comics, da Eastern Color Printings, um ano depois. Apesar desse primeiro trabalho, no qual produziu a ilustração de um conto e uma HQ curta de guerra, Alex Toth não conseguiu – pelo menos àquela época- realizar seu sonho de desenhar tiras. Naquele período elas estavam em declínio e os jornais não davam mais tanto espaço a desenhistas. O jeito foi buscar renda e realização na sensação do momento: os quadrinhos de super-heróis.



Nivelado por baixo
All-Star Comics nº 37:  Toth encontra
os super-heróis 
(Fonte: Bully's Comics)

Em 1947, depois de várias HQs produzidas para a Eastern e uma tentativa infrutífera de incrementar a renda alistando-se na Marinha – foi rejeitado por ter uma espécie de daltonismo-, Toth foi contratado por Sheldon Mayer para trabalhar na National Comics (futura DC Comics). O início de Toth na casa foi ilustrando duas partes de uma HQ da Sociedade da Justiça em All-Star Comics nº 37, seguida pela aventura em 12 páginas The Tricks Of The Sportsmaster (Os Truques do Mestre dos Esportes), publicada em Green Lantern nº 28, revista própria do Lanterna Verde.

Toth trabalhou por cinco anos na National, desenhando, além de Lanterna Verde e Sociedade da Justiça, diversas HQs de faroeste e romance, sempre demonstrando interesse em experimentar variados gêneros. 




Apesar do período considerável na editora, o artista, um perfeccionista por natureza, especialmente no que tangia à sua arte, detestava seus habituais colegas responsáveis pelo argumento das tramas. A seu ver, eles não passavam de refugo dos velhos pulps que nada entendiam da lógica da HQs e entregavam roteiros fracos, longe de estarem à altura de seus dotes artísticos e dedicação.

Seu traço limpo e elegante, especialmente nas tramas de ficção científica, faroeste e romance, fez sucesso, o que rendeu-lhe o convite de seus sonhos: ilustrar uma tira de jornal. A série era Casey Ruggles, criada por Warren Tufts. O interesse de Toth foi tamanho que ele se mudou para San José, na Califórnia, onde residia Tufts. Segundo matéria do jornalista Maurício Muniz na edição 26 da revista Mundo dos Super-Heróis, foi nessa cidade também que Alex Toth conheceu sua primeira esposa, Christina.

Contudo, as ideias de Tufts e Toth não se coadunavam e o desenhista voltou para Nova York no fim do mesmo ano de 1950, casado. Contatado por Harvey Kurtzman, da EC Comics, Toth também criou HQs de guerra, dentre as quais se destaca F-86 Sabre Jet, publicada em Frontline Combat nº 12 (1953). Em 1954, seu grande sonho tornou a acenar para ele com o chamado para trabalhar na tira de jornal que adaptava Dragnet, um seriado policial que era o sucesso da época. Porém, sua contribuição na tira acabou interrompida por outra surpreendente convocação: alistar-se no exército para ser enviado ao Japão e combater na Guerra da Coreia.

Primeira página de F-86 Sabre Jet!, HQ de Toth que narra  a agonia de um piloto na Guerra da Coreia (Fonte: Space In Text)

Guerra e Duelos de Espada

Alocado em trabalhos administrativos, Toth mesmo assim não interrompeu sua produção, criando HQs para editoras como Lev Gleason, Charlton e Atlas (futura Marvel Comics), enviando suas páginas para os Estados Unidos pelo correio. Em 1956, Alex Toth deu baixa no exército e voltou para os Estados Unidos, com planos de financiar, através de suas HQs, um curso de design no Centre School Of Design. Contudo, Toth encontrou o país mergulhado numa paranoica campanha difamatória contra os quadrinhos, promovida pelo psiquiatra Fredric Wertham. A saída para o artista foi se empregar na Dell Comics, uma editora que publicava quadrinhos insípidos e ainda pagava mal seus colaboradores.



Edição encadernada de HQs de Zorro assinadas por Toth
(Fonte: Pencilink)

Na Dell, Toth chamaria atenção outra vez na revista Four Color, ao fazer a adaptação de um dos episódios da série Zorro, produção da Disney estrelada por Guy Williams. A edição foi um sucesso e foi seguida de mais episódios transpostos para a Nona Arte pelas mãos talentosas de Alex Toth. 






Grandes Heróis Hanna-Barbera

Batalhando duramente para se sustentar, Alex Toth descobriu, em 1960, um novo e promissor campo de trabalho que outros grandes quadrinistas como Jack Kirby, Steve Gerber e Gerry Conway só descobririam anos depois: a animação. Além de mais valorizados, os artistas ganhavam bem melhor nos estúdios de desenhos animados do que nas editoras de quadrinhos.

Naquele ano, Toth foi convidado para trabalhar como diretor de arte de O Anjo do Espaço (Space Angel), série animada produzida pelo Cambria Studios. Junto com o ex-colega Warren Tufts e o competente desenhista Doug Wildey, Toth elaborou o visual dos personagens e do desenho como um todo. Trabalho demorado, O Anjo do Espaço só estreou em 1962, quando Alex Toth já havia se desligado do projeto, mais uma vez por se desentender com seus companheiros de trabalho.

Jonny Quest, design de Doug Wildey 
com uma mãozinha de Toth
(Fonte: Jornália do Ed)
A experiência, apesar de tudo, agradou a Toth. E quando Doug Wildey o chamou para trabalhar num novo projeto de animação, o artista não perdeu tempo. Sob a batuta do estúdio Hanna-Barbera, eles produziram Jonny Quest.

Concomitantemente à produção de Jonny Quest, Toth elaborou outros projetos para o estúdio, sendo o mais famoso deles Space Ghost






Sob a pena de Alex Toth, a partir daí, foram concebidos diversos clássicos da animação, sempre com um pé no mundo dos super-heróis: Homem-Pássaro, Galaxy Trio, Os Quatro Fantásticos, Moby Dick, Poderoso Mightor, O Jovem SansãoShazzan, Os Herculoides (todos em 1967) e Superamigos (1973), clássico desenho da Liga da Justiça.



Estudos de personagens feitos por Alex Toth: Space Ghost...
(Fonte: Cartoon Concept Design)

...e em sentido horário: Poderoso Mightor, Shazzan, o leão Golias (de Jovem Sansão), Herculoides e Sansão (Fonte: Cartoon Concept Design)

Embora Toth seja mais referenciado por ter criado todos esses personagens, o quadrinista Mário Latino alega em seu artigo que o artista achava medíocres os seus conceitos. Sua intenção ao elaborá-los, com vários esboços mostrando sua tridimensionalidade e abrindo espaço para um aprofundamento de suas psiques, foi engolfada pela proposta do estúdio de fazer animações despretensiosas e apenas divertidas para as crianças. 

Aventurando-se em outras fronteiras

O trabalho com animação não impediu Toth de praticar a boa e velha narrativa em quadros, assinando HQs na Marvel e DC Comics. Na Warren Publishing, fez HQs de terror para as clássicas revistas Eerie e Creepy e, ao lado do roteirista Archie Goodwin, concebeu a história Survival, um libelo contra a Guerra do Vietnã lançado na revista Blazing Combat.

O ano de 1968 foi marcante sob vários aspectos para o mundo e para Alex Toth, não foi diferente. Depois de 18 anos de união, ele se divorciou de Christina para se casar com Guyla Avery, secretária do produtor e diretor William Hanna, que ele havia conhecido na Hanna-Barbera Productions. Guyla seria definitivamente a mulher de sua vida. 

Bravo For Adventure é talvez o material mais autoral de Alex Toth
(Fonte: Comix Connection)
Em 1970, Alex Toth recebeu uma proposta de Jean-Pierre Dionett, ícone dos quadrinhos franceses. Dionett oferecia a Toth a chance de fazer um álbum autoral destinado ao público europeu. O artista aceitou e produziu a história Bravo For Adventure, protagonizada pelo piloto mercenário Jesse Bravo, uma homenagem de Toth a alguns elementos de sua infância, em especial o ator Errol Flynn. No entanto, o texto fraco impediu a publicação da obra na Europa e ela só veria a luz do dia em 1980, por iniciativa da editora Warren.




A série Torpedo 1936 foi outra série com foco no estrangeiro que teve contribuição de Alex Toth, lançada em 1981 na edição 32 da versão espanhola da Creepy. Com texto de Enrique Sanchez Abuli e arte de Totha violência e o humor negro da HQ assustaram o desenhista, que abandonou Torpedo 1936 logo após a segunda história.



O fim de seu mundo

Embora tenha trabalhado praticamente durante toda a vida para a National Comics – DC Comics a partir de 1976-, Alex Toth só lidou com as pratas da casa em apenas duas ocasiões. Em 1974, sob texto de Archie Goodwin, velho colega da editora Warren, ilustrou Batman na aventura Death Flies The Haunted Sky (A Morte Voa no Céu Assombrado), lançada em Detective Comics nº 442. Em Superman Annual nº 9 (1983), assinou 30 páginas narrando uma aventura que unia o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas contra a vilania de Lex Luthor.

De fins dos anos 1970 até a metade da década de 1980, a produção de HQs de Alex Toth cresceu em volume, mas, infelizmente, não por vontade do autor. Guyla, sua esposa, foi diagnosticada com câncer e os custos do tratamento eram severos. Durante a batalha contra a doença, fosse para ajudar no pagamento desses custos ou apenas para tentar se aliviar do clima pesado em que vivia, Toth fez diversos trabalhos para a DC em histórias de Lanterna Verde, Canário Negro e Desafiadores do Desconhecido.

Pin-up de Madman, criação de Mike Allred, 
feita por seu ídolo Alex Toth
(Fonte: Tumblr Alex Toth)
Em 1985, Guyla Toth morreu e a vida de Alex veio abaixo. O autor abandonou o trabalho e se tornou antissocial, passando os dias em casa, isolado, vendo filmes antigos, fumando muito, fazendo desenhos esporádicos e escrevendo artigos para revistas especializadas. Em seus textos mais raivosos, seu alvo predileto eram os editores de HQs, a quem culpava pelo que classificava como uma queda na qualidade dos quadrinhos. Só dois motivos o arrancavam de casa nas poucas vezes em que saía em público: ir ao médico e participar de convenções de quadrinhos, onde desenhava pin-ups a pedido de fãs e aproveitava para destilar seu veneno contra profissionais do meio. 






Mesmo grandes artistas da nova geração e fãs declarados de sua obra como Mike Allred e Steve Rude, que até mantiveram por algum tempo uma boa relação com o mestre, não escaparam da rabugice de Alex Toth. A perda de Guyla aparentemente fez com que Toth recusasse qualquer tipo de apreço das outras pessoas, fossem fãs, colegas ou pessoas comuns. 



Fim emblemático

Retrato de Alex Toth pelo desenhista Michael Netzer
(Fonte: Michael Netzer)
Nos anos seguintes, poucos foram os trabalhos oficiais de Toth, como a capa da edição 4 da minissérie Batman Black And White, de 1996 e a do álbum Plastic Man Archives, de 1998, compilando aventuras clássicas do herói Homem-Borracha. No mesmo período, seus trabalhos mais expressivos durante a carreira foram republicados por diversas editoras como a Eclipse, Image e Dark Horse Comics. 

Depois de anos de abuso com o fumo, a saúde de Alex Toth começou a cobrar o preço. No fim de 2005, precisou ser internado e, além de descobrir os previsíveis problemas pulmonares, foi diagnosticado com transtorno bipolar. Estava explicado o comportamento errático de toda uma vida. 

O fim estava próximo e ele não poderia ser mais emblemático em se tratando desse artista. Na tarde de 27 de maio de 2006, Alex Toth trabalhava num desenho quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. O quadrinista faleceu no ato de sua arte, debruçado sobre a prancheta e segurando seu lápis. Considerado um gênio da narrativa no porte de Jack Kirby e Will Eisner, Alex Toth foi premiado com o Inkpot Award em 1981 e incluído no Jack Kirby Hall Of Fame, o Olimpo dos quadrinistas, em 1990. Seja nas HQs, seja nos desenhos animados, o legado de Alex Toth está aí para todo mundo ver.


Homenagem do artista Alex Ross aos heróis Hanna-Barbera. A maioria, não por acaso, saídos da prancheta de Alex Toth (Fonte: The Dork Review)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Os punhos mortais de O Santo, o maior herói do México

Por Valdemar Morais


El Santo, em capa de sua última série (2005)
(Fonte: Sensacional de Luchas)



Nome Original: El Santo.
Criadores: Rodolfo Guzmán Huerta e José G. Cruz.
Alter-egos: Desconhecido.
Primeira Aparição HQ: Santo: El Enmascarado de Plata nº 1, Ediciones JGC (1952).














Rodolfo Guzmán Huerta (1917-1984) foi um lutador mexicano de wrestling, o famoso Telecatch ou Luta-Livre, grandes espetáculos nos quais combates ensaiados com direito a mocinhos e vilões emocionam plateias pelo mundo. Em 1942, Huerta, que começou a lutar com apenas 16 anos, entrou para o time dos mascarados, a elite do wrestling, e, para tal, assumiu a alcunha de Santo, El Enmascarado de Plata. No começo, ele era o vilão nos confrontos, mas algum tempo depois virou o mocinho dos ringues e se tornou o lutador mais popular do gênero e um verdadeiro ícone do México.

Essa popularidade logo gerou sensação e chamou atenção do quadrinista José Guadalupe Cruz (1917-1989), que promoveu a inserção do personagem no mundo dos quadrinhos. Com uma técnica que misturava desenho e fotonovela, contando com a participação do próprio Huerta fantasiado de Santo, Cruz apresentou aos mexicanos a origem do misterioso herói que jamais mostrava seu rosto.

Um homem vestido com calça colante, botas, capa e uma máscara prateados é ferido de morte no confronto com bandidos e desesperadamente vai ao encontro de seu filho. O pequeno, chocado, promete cumprir a promessa imposta pelo outrora vigilante: lutar contra o mal em todas as suas formas usando a máscara de prata. O jovem sepulta o pai e passa dezesseis anos se preparando para empreender sua missão, ao mesmo tempo em que fica obcecado em vingar a morte do pai, vingança esta que concretiza justamente em sua estreia como aventureiro. Chamando-se de Santo, o Mascarado de Prata, ele passa a combater o crime.

Sair só no muque contra os piores monstros é hábito para O Santo
(Fonte: Comicvine)
Exímio lutador e dotado de reflexos aguçados por anos de treinamento, além de uma coragem inabalável, o Santo enfrenta um sem número de adversários como assassinos, gangues e assaltantes, mas seu caminho também cruza, vez por outra, com criaturas sobrenaturais como vampiros, bruxas, sereias e até múmias. Dentre seus inimigos, se destacam o chefe criminoso Indo, o cientista assassino Kroto e Bongo, um monstruoso guerreiro capaz de transformar pessoas em zumbis.

No decorrer de suas aventuras, Santo encontra o garoto Bobby, um grande fã que se torna seu fiel escudeiro, e conta com o apoio do Chefe de Polícia, que sempre o chama quando a ameaça parece ser demais para as autoridades. No confronto com inimigos mais cruéis, o Santo também pode contar sempre com a proteção de Kyra, a Maga Branca, seu grande amor, que espera viver com o Santo no Olimpo, a morada dos heróis, quando o mundo já não precisar dele. 




Fonte

  • O Santo em Mundo dos Super-Heróis nº 32, Editora Europa (2012);
  • Santo, El Enmascarado de Plata em Kingdom Comics.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Morte do Super-Homem


Por Valdemar Morais


(Fonte: HQ Con)



Agradar aos fãs do Superman (ou Super-Homem como era chamado por aqui até 2000) não é coisa fácil. Antes do megaevento que reformulou toda a linha editorial da DC Comics, Crise Nas Infinitas Terras (1985), o personagem vivia num marasmo de histórias que ainda remetiam à década anterior. Depois da borracha passada na trajetória do Homem de Aço desde sua criação em 1938, a DC Comics pôs o herói nas mãos do maior astro dos quadrinhos de super-heróis daquela época, John Byrne. O escritor e desenhista recriou toda a mitologia do kryptoniano, tornando-o menos super e mais humano. O efeito foi o de uma nova leva de fãs e o Superman viveu belos quatro anos de sucesso em seus três títulos mensais.





No entanto, os saudosistas ainda eram maioria naquela época e rejeitaram o Superman de Byrne, que andava longe de ser o ícone do bom-mocismo. Estafado pelo trabalho (desenhava duas das três revistas do herói, enquanto permanecia escrevendo todas) e pelas críticas, principalmente depois do polêmico arco em que o Superman mata três criminosos kryptonianos, Byrne deixou as séries do herói, dando lugar a um time capitaneado pela escritora Louise Simonson e o escritor e desenhista Dan Jurgens

Apesar do empenho de Jurgens e outros profissionais como o escritor-desenhista Jerry Ordway e os ilustradores Tom Grummett e Jon Bogdanove, que produziram HQs de razoáveis à boas, as mesmas não convenceram os leitores e as vendas foram decaindo. Depois de uma tentativa frustrada de casar o Superman e Lois Laneo que só ocorreu nas HQs em 1996-, os autores se entregaram a uma piada recorrente na editoria do Homem de Aço, disparada sempre quando alguma ideia de grande evento para o ano furava: “Pra sair dessa, só se matássemos o Superman!”. Uma piada que o editor Mike Carlin levou a sério.


Fruto de engenharia genética, Apocalypse é pura força e barbaridade
(Fonte: Superman Wiki)
Com o apoio dos veteranos Simonson e Roger Stern, Dan Jurgens elaborou o surgimento da criatura Apocalypse, um monstro irracional e furioso, cheio de saliências ósseas cortantes e perfurantes, que emerge do chão em pleno território estadunidense e empreende uma marcha de destino desconhecido, mas de intensa destruição. A Liga da Justiça - que à época, além do próprio Homem de Aço, era formada pelo ex-lanterna verde Guy Gardner (dotado de um anel energético amarelo), Besouro Azul, Gladiador Dourado, Fogo, Gelo, Bloodwynd e Máxima, outrora vilã do Superman- confronta a criatura, apenas para ver seus integrantes massacrados e deixados à beira da morte. Diante da ameaça, Superman abandona uma entrevista ao vivo na TV e parte para o combate contra o monstro, que rivaliza em força, mas supera em crueldade e selvageria.


A Liga da Justiça da época foi facilmente derrotada por Apocalypse
(Fonte: Comicvine)
A batalha arrasta consigo outros personagens do universo do herói, como os integrantes do Projeto Cadmus, Dubbilex e Guardião; coadjuvantes tradicionais como os pais Martha e Jonathan Kent, Jimmy Olsen, Supermoça e – não poderia faltar- a grande nêmese, Lex Luthor, que na época havia passado por uma radical mudança de visual e personalidade.  O colossal confronto alcança seu clímax às portas do Planeta Diário, o jornal onde Clark Kent, alter-ego do Homem de Aço, conseguiu seu lugar ao sol. Num último esforço, Superman golpeia Apocalypse com tudo o que tem e o derrota, mas também sucumbe aos ferimentos e morre nos braços de sua amada Lois Lane. 


Apocalypse fez o que Lex Luthor não conseguiu: arrancar sangue (e muito) do Superman
(Fonte: Comic Book Movie)

O evento pegou o mundo inteiro de surpresa e causou tamanho impacto que mereceu repercussão até em jornalísticos nacionais da época, como o Jornal Nacional (Globo) e Aqui Agora (SBT). Nos Estados Unidos, a edição que sela o destino do herói, Superman nº 75, vendeu seis milhões de exemplares. Comovida, a Terra perdia seu maior herói num confronto contra uma fera assassina de origem desconhecida. Será o adeus ao S incrustado no diamante? Será o fim da vitoriosa trajetória de um personagem de 55 anos? Será que a Warner Bros., dona da DC Comics e por conseguinte do Superman, fecharia as portas para uma lucrativa franquia como aquela?

Será? Os desconfiados duvidavam da manobra e imaginavam que a morte seria breve. Sim, o Superman ressuscitaria, subiria dos mortos. A questão era: como? Mas isso fica para um outro post...



Anúncio da Abril Jovem de A Morte do Super-Homem e seus brindes
(Fonte: Propagandas de Gibi)

No Brasil, a Editora Abril não quis perder o timing do evento e lançou A Morte do Super-Homem em novembro de 1993, numa edição formatinho (13,5 x 19 cm) toda negra, trazendo na capa o dramático S do herói pingando sangue e acompanhada de um kit com brindes especiais. Com a defasagem da cronologia em relação às edições estadunidenses, os leitores brasileiros só leriam as consequências do evento nas séries regulares a partir da revista Super-Homem nº 126, de dezembro de 1994.

Clássico unânime do marketing, mas controverso do ponto de vista da qualidade, A Morte do Super-Homem foi publicada no Brasil por três vezes pela Editora Abril, sendo a última em 2002 como minissérie em três edições e já com Superman no título. Recentemente, a Panini Comics lançou A Morte do Superman Volume 1 (2009) e Volume 2 (2010), duas edições de luxo em formato americano (17,5 x 26 cm) e com capa dura, compilando toda a trama da morte e do retorno do Homem de Aço em aproximadamente 800 páginas de quadrinhos.

A MORTE DO SUPER-HOMEM- Edição Especial.


Histórias: 
Prelúdio; Saldos da Derrota; Contagem Regressiva para o Apocalypse; Sob Fogo Cerrado; ...Apocalypse está chegando; O Dia do Apocalypse; O Dia Em Que o Super-Homem Morreu: Apocalypse!
Ano de Lançamento: 1993.
Editora: Abril Jovem/DC Comics.
Roteiro: Louise Simonson, Dan Jurgens, Jerry Ordway e Roger Stern.
Desenhos: Jon Bogdanove, Dan Jurgens, Brett Breeding, Tom Grummett e Jackson Guice.
Arte-final: Dennis Janke, Rick Burchett, Brett Breeding, Doug Hazlewood e Denis Rodier.
Cores: Glenn Whitmore e Gene D’Angelo. 
Tradução: Estúdio Artecômix.
Personagens: Super-Homem (Superman).
164 páginas


Fonte